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UM SUPORTE PARA O DESENVOLVIMENTO
São fortes os indícios de que o Brasil, a exemplo de outras economias em desenvolvimento, deverá
experimentar um período de crescimento sustentável em taxas mais altas. Superado um longo período de estagnação, ou de crescimentos não mais que vegetativos a partir do início dos anos oitenta, quando o país demorou a se adaptar às exigências de uma economia em acelerado processo de transformação, a recente retomada do crescimento nos EUA, beneficiando outras economias avançadas, parece propiciar uma oportunidade para que também aqui se instale um novo ciclo de desenvolvimento.
Depois de recuperado o controle sobre a moeda, que havia se desestabilizado no segundo semestre de 2002, e posta em prática uma política de forte aperto fiscal pelo novo governo, o que impediu que o país em 2003 apresentasse crescimento, a partir do segundo trimestre de 2004, os números da economia parecem bem mais promissores.
Puxados pelos excelentes resultados do comércio exterior, sobretudo no que diz respeito à maioria dos segmentos exportadores do complexo agroindustrial, diversos setores da indústria e do comércio passaram a apresentar índices significativos de crescimento, ainda que calculados sobre as bases muito baixas do ano anterior. No entanto, essas tendências têm-se mantido permanentes desde o último trimestre de 2003, o que faz crer não se tratarem apenas de bolhas de crescimento como as ocorridas em alguns momentos durante o período de estagnação. Além do mais, o surgimento do Brasil como importante produtor e exportador de produtos do complexo agroindustrial foi construído sobre bases de competitividade bastante sólidas, e que assim devem permanecer por um bom tempo, ainda mais que catalisadas por conquistas importantes nos fóruns internacionais de comércio.
Já está claro, também, que os resultados do setor exportador terão conseqüências diretas sobre o crescimento do mercado interno e das ofertas de emprego no país, o que poderá conduzir a um círculo virtuoso que dure alguns anos, descartados aí abalos muito graves na economia e na política internacionais.
Para que isso ocorra, no entanto, será necessário que o país aumente a sua capacidade de investimento público, sobretudo no que diz respeito à infra-estrutura de logística, o que somente poderá vir, por um lado, de controles mais fortes sobre os gastos correntes do governo e, de outro lado, de taxas de juros de longo prazo mais favoráveis e regras mais claras para os investimentos privados.
Confirmado esse quadro, por certo, serão ainda mais importantes os desdobramentos no sentido da interação do setor de inovação tecnológica com o setor produtivo nacional.
Reconhecidamente, não foram poucos os resultados positivos conquistados pelo complexo agroindustrial brasileiro que vieram da interação de nossos órgãos de pesquisa com segmentos do setor produtivo.
Estima-se que a Embrapa Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária tenha sido responsável, nos últimos anos, por mais de 50% dos projetos de pesquisa e desenvolvimento aqui realizados. Da mesma forma, muitas outras instituições de
P &D estiveram associadas a projetos de sucesso nas áreas agrícola e pecuária.
Ora, se nesses setores os ganhos foram evidentes e se fazem sentir nos índices de produtividade alcançados em várias culturas agrícolas, nas pecuárias de corte e leite, na avicultura, em alguns segmentos de alimentos processados, com conseqüências diretas nos negócios desses setores, é importante que essa interação se espalhe para as demais atividades produtivas da economia brasileira e dêem sustentação a seu crescimento.
É fatal que a busca por competitividade será, cada vez mais, encontrada na aproximação do pensamento tecnológico com o pensamento de mercado, ou seja, com a aceitação de que ambos os pólos detêm conhecimentos fundamentais para obter resultados que atendam as necessidades do desenvolvimento econômico.
Mas, não só.
A sustentação de um ambiente de crescimento, se não acompanhada de um quadro de desenvolvimento humano e social, tende apenas a perpetuar uma sociedade de castas, onde as conquistas estão condenadas a permanecerem restritas às vitrines dos poucos que as compartilham.
Também aí, o papel da inovação tecnológica na retomada, precisará ser revisto e aprofundado.
O crescimento somente será harmônico se, com freqüência, a pesquisa e o desenvolvimento incluírem entre seus componentes um olhar de apropriação ética, de preocupação ambiental, de respeito cultural e de compartilhamento social.
Pode haver comércio, mas não há desenvolvimento sem que as suas conquistas possam ser de forma crescente distribuídas.
(RD, agosto/04).