MOMENTO DA INTERAÇÃO

Não é de hoje que se ouve falar na dificuldade de interação entre a pesquisa desenvolvida nas
universidades e o setor produtivo nacional. Depois de tanto tempo, seria de se supor que o problema estivesse resolvido ou, pelo menos, amenizado. Pois não é bem assim. Mesmo ampliadas as ações no sentido dessa aproximação, sobretudo por parte da universidade com a criação de agências, órgãos, núcleos e redes de pesquisa, o resultado obtido ainda é bastante incipiente.

Em dezembro de 2003, organismos ligados ao assunto promoveram o seminário "Caminhos da Inovação Tecnológica na USP". Nele, especialistas brasileiros e do exterior, na presença de pesquisadores da USP e de outras universidades e instituições de pesquisas, bem como de representantes da iniciativa privada, discutiram evoluções no sentido de superar o problema.
Vários foram os assuntos expostos: casos reais de transferência de tecnologia; a estrutura das agências de inovação - particularmente a da USP; aspectos da política e gestão tecnológicas; o estágio da P&D na indústria brasileira; os aspectos legais da obtenção de patentes. Enfim, mostrava-se que há pessoas preocupadas com o assunto e quais organismos foram criados para catalisar essa aproximação.

Apesar disso, a tônica, ao final de cada uma das exposições, recaía no fato de que os resultados práticos dessas ações eram muito pequenos, e que a universidade e o setor produtivo, em suas tarefas de gerar conhecimento para o desenvolvimento econômico, ainda mantinham uma distância abissal.

Nos países mais desenvolvidos, o setor produtivo e a universidade interagem em expectativas que partem das duas pontas. Num sentido, a percepção das empresas de suas necessidades de novas tecnologias faz com que elas se juntem ao governo para investir em geração de conhecimento pelos pesquisadores. No sentido inverso, a pesquisa espontânea gerada nas universidades é percebida e apropriada pelo setor produtivo e transformada em novos produtos, processos e serviços. Não foi isso o que aconteceu no Brasil.

Do lado do setor produtivo, a convivência com modelos econômicos fechados, reservando mercado e protegendo a indústria com benefícios, incentivos fiscais e barreiras alfandegárias, em nada estimulou a procura por novas tecnologias. E se, por acaso, alguma empresa delas precisasse, optava por comprá-las fora. Se naquela época já eram poucos os departamentos de P&D nas empresas, quase sempre desfocados pelo ambiente econômico, com os anos de estagnação que se seguiram, eles acabaram empobrecendo ou, simplesmente, desapareceram.
Do lado da universidade, se o resultado do crescimento econômico da década de 70 ainda pôde garantir que as verbas concedidas pelo governo fossem suficientes para o desenvolvimento de novas pesquisas, essas eram apenas destinadas à publicação e à obtenção de graduações internas à universidade, pois, mal informadas pelo setor produtivo, desconheciam e, por isso desconsideravam, as necessidades da sociedade e do mercado.

Na verdade, aquele foi um período em que a universidade priorizou o seu papel de aparelho de resistência à ditadura, o que a fazia, em determinados momentos, inclusive, a se opor à indústria.
Pois é justamente esse o quadro que mudou de forma radical. Ao mesmo tempo em que, com o final da ditadura militar, a universidade exorcizou esses demônios e voltou a priorizar o seu papel histórico de gerar conhecimento para melhorar a sociedade, as transformações nas economias nacional e mundial fizeram com que ela tivesse que olhar para fora na procura de novos investidores, até porque duas décadas de estagnação já não permitiam mais uma irrigação de verbas que atendesse às suas necessidades.

As empresas, por sua vez, não mais protegidas, combalidas por seguidos anos de crise econômica e que, antes, a arriscar, preferiam acomodar-se apenas ao já existente, agora, diante de um sistema econômico competitivo e internacional, não mais poderiam concorrer se não coadjuvadas pela geração de novas tecnologias.

Hoje, já não é mais apenas recomendável que universidade e empresa se integrem, mas sim questão de sobrevivência para ambas, o que supõe, mesmo que as condições de crescimento da economia não estejam completamente asseguradas, urgência numa interação capaz de converter conhecimento científico em retorno financeiro.


(RD - abr/04)